Terá sido uma importante cidade romana entre o séc. I e II da nossa era, devido à sua posição geoestratégica nesta região do litoral alentejano.
A extração de minério nas serras vizinhas, as férteis planícies em redor, a proximidade do mar, fundamental para o escoamento dos produtos, principalmente do minério, para outros locais do império, terão sido factores determinantes para que os romanos ocupassem o local.
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Calçada romana em Miróbriga |
Mas a história de Miróbriga será muito mais antiga. Terá tido início nos séculos V ou IV a.C. quando povos de origem Celta, ocuparam o topo da colina conhecida por Castelo Velho e aí construíram um povoado fortificado.
Com a chegada dos romanos no século I a. C., o povoado foi sendo romanizado, mantendo-se no mesmo local e com o mesmo nome, começando a crescer para fora das antigas muralhas de pedra-seca.
Na segunda metade do séc. I d.C., Miróbriga foi promovida a civitas e municipium, os seus habitantes adquiriram a cidadania latina, o que lhes concedia direitos mas também deveres, como o serviço militar e o pagamento de impostos. Quem ocupasse cargos na magistratura, como terá acontecido com as elites locais, poderia aceder à cidadania romana.
Um grande plano de construções é implementado e surgem novas áreas habitacionais, de comércio, edifícios públicos, redes de escoamento de águas e esgotos, calçadas e o circo.
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A praça do Forum de Miróbriga vista do Templo |
O FORUM
No alto da colina, numa posição de domínio da paisagem envolvente, é construído o forum, com os seus edifícios administrativos e religiosos. Este era o local mais importante da cidade, o seu centro político, religioso, económico e social.
A praça pública do forum de Miróbriga era pavimentada com blocos de calcário fétido de S. Brissos e rodeada por uma galeria que dava acesso à Basílica, onde se assegurava a administração da justiça e permitiria o comércio, à Cúria onde decorreriam os actos administrativos e eleitorais, e a outros edifícios.
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Templo do forum de Miróbriga possivelmente dedicado ao culto imperial
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A norte, no alto de um pódio revestido por placas calcárias e assumindo um lugar de destaque no complexo, foi edificado um templo muito provavelmente dedicado ao culto imperial.
O templo de Miróbriga é a imagem de marca do sítio arqueológico.
As três colunas em mármore que o embelezam e lhe conferem um ar solene, foram ali colocadas aquando da sua reconstrução nos anos 60 e 70 do século passado, mas na realidade elas pertenciam ao edifício das termas.
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As colunas de mármore colocadas no templo de Miróbriga pertenciam ao edifício das termas |
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Capitel coríntio numa das colunas do templo de Miróbriga |
No forum foram encontrados vestígios de outros dois templos, um deles possivelmente dedicado a Vénus.
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Escadaria que dava acesso a um templo possivelmente dedicado a Vénus
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A ZONA COMERCIAL
A sul do forum, uma zona comercial é constituída por tabernae, lojas e/ou oficinas situadas no andar térreo das habitações e comunicando diretamente para a rua.
Em Miróbriga, as tabernae distribuem-se em redor da colina do forum como que em aneis concêntricos, e onde as calçadas adjacentes acompanham a topografia do terreno, serpenteando a colina, subindo e descendo conforme os declives.
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Tabernae a sul do Forum de Miróbriga |
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Tabernae a oeste do Forum de Miróbriga |
AS CALÇADAS, A PONTE E O CIRCO
As ruas de Miróbriga, não se apresentam dispostas em quadricula, como é característico nas cidades romanas.
No entanto, existem duas vias principais: um decumanos maximus (via orientada este-oeste), a calçada que encontramos na entrada do sítio arqueológico e que nos conduz em direção ao forum; e um cardo maximus (via orientada norte-sul), a longa calçada que desce de forma íngreme até às termas. Esta via atravessava a ponte de um só arco, passava pelo hipódromo ou circo, a menos de 1 Km de distância e seguiria para terras mais a sul.
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O cardo era uma rua/via romana com orientação norte/sul numa cidade ou acampamento militar |
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A ponte romana de um só arco em Miróbriga |
O circo de Miróbriga, com 369 m de comprimento e 75 m de largura, foi construído em inícios do séc II d.C.. É o único exemplar em território português em que a planta está totalmente definida. São conhecidos os limites da arena, e as fundações e o revestimento da spina (a parte central geralmente decorada com esculturas, obeliscos, etc). As bancadas poderiam ter sido construídas em madeira, pois delas não são conhecidos nenhuns vestígios.
Não existe acesso ao circo, pelo que infelizmente esta zona não é visitável.
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O arco da ponte romana de Miróbriga |
AS ÁREAS RESIDENCIAIS
Das cerca de 29 habitações encontradas até agora, algumas só parcialmente escavadas, a maioria são domus de dimensões modestas, com átrio ou peristilo, se bem que algumas tenham sido posteriormente remodeladas e ampliadas, convertendo-se em residências mais luxuosas.
Numa zona mais periférica da cidade, foram encontradas pequenas habitações junto de grandes quantidades de escória de ferro, o que aponta para uma possível área onde esse metal seria trabalhado.
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"Casa do Fresco" em Miróbriga |
Os frescos nas paredes aparecem em dois locais:
na chamada “Casa da Hospedaria”, a sul do Forum, com frescos que apontam para o terceiro quartel do século I d.C.;
e na “Casa do Fresco”, datada a partir do século II d.C., que já possuía água canalizada.
Não foram encontrados mosaicos em Miróbriga.
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“Casa da Hospedaria” em Miróbriga |
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“Casa da Hospedaria” pormenor dos frescos |
A sul do decumanus, numa área que terá sido construída já primeira metade do século II d.C., o desnível do terreno é compensado por arruamentos com escadarias, onde é possível ver o respectivo sistema de esgotos. Aqui encontra-se a chamada "casa da insula" que poderia ter mais de um andar.
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Casa da insula em Miróbriga |
Não foi encontrada em Miróbriga nenhuma necrópole contemporânea da ocupação da cidade, nem tão pouco foram descobertos vestígios de uma muralha delimitadora, não sendo ainda conhecida a verdadeira dimensão da malha urbana.
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Área habitacional a sul do decumanus com arruamentos com escadarias |
AS TERMAS
As termas ocupam uma posição de destaque na vida e cultura romana. Tinham um papel importantíssimo na vida social da cidade, funcionando não apenas como um local destinado à higiene, mas também como ponto de reunião, de debate e de lazer.
Os banhos públicos de Miróbriga, dos mais bem conservados a nível nacional, foram construídos numa das zonas mais baixas da cidade, possivelmente para aproveitamento das águas da chuva que para ali convergiam.
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As termas romanas de Miróbriga |
Trata-se de dois edifícios encostados, talvez um para o sexo feminino e outro para o sexo masculino. As “termas-este”, terão sido as primeiras a serem construídas no séc I d.C., e as “termas-oeste” terão sido construídas posteriormente.
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Edificio das "termas-este" Miróbriga |
Ambos os edifícios têm as habituais divisões frigidarium, tepidarium e caldarium, salas onde as pessoas se despiam e deixavam os pertences (apodyterium), zonas para praticar exercício físico e convivio (palaestra).
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Caldarium e hipocaustum "Termas-este" de Miróbriga |
As “termas-oeste”, maiores e melhor preservadas, tinham a maioria dos compartimentos revestidos de placas calcárias, tanto no chão como nas paredes. É a este edifício que pertenciam as colunas de mármore que se encontram no templo.
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Edificio das "termas-oeste" Miróbriga
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Frigidarium das "termas-oeste" Miróbriga
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Tepidarium (esq) e caldarium (dta) "termas-oeste" de Miróbriga |
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Neste complexo existem ainda casas de banho públicas - as latrinae, um espaço amplo, onde bancos em pedra com orifícios serviam de assentos. Por baixo dos assentos, um fluxo de água levava os dejetos para o sistema de esgotos da cidade.
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Latrinae - as casa-de-banho públicas nas termas de Miróbriga
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Latrinae - as casa-de-banho públicas nas termas de Miróbriga |
O ABANDONO DA CIDADE
No séc. II d.C., Miróbriga deixou de se expandir e sofreu algum abandono já durante o séc. III d.C..
Na 2ª metade do séc. III, algo catastrófico poderá ter ocorrido, talvez um sismo ?, obrigando à reconstrução e reparação de algumas infraestruturas como calçadas e a ponte de pedra. Muitas das casas de Miróbriga ficaram destruídas e foram abandonadas.
Após a catástrofe, que terá abalado toda a comunidade, a ocupação da cidade foi decaindo e no séc. IV d.C., as termas terão sido abandonadas.
Apenas algumas famílias terão permanecido em Miróbriga até à primeira metade do século VI d.C.. Algumas terão ido para Sines, local que há muito serviria de porto à cidade. Outras, em busca de um local seguro, ter-se-ão mudado para a colina vizinha do Castelo Novo, onde foi construído o castelo de Santiago do Cacém, aliás, à custa de muito material retirado da antiga cidade romana.
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O castelo medieval de Santiago do Cacém foi construído com muitas pedras retiradas de Miróbriga |
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Miróbriga |
MIRÓBRIGA - SERÁ ESTE O SEU NOME?
Miróbriga - a cidade romana – é o nome por que ficou conhecido o sítio arqueológico de Chãos Salgados, ou o Castelo Velho, mas não existem certezas de que esse fosse realmente o seu nome.
Quando da descoberta das ruínas no séc. XVI, recorreu-se ao naturalista romano do séc. I d.C., Plínio-o-Velho. Na sua obra Historia naturalis, ele descreve os povos, cidades, rios e outras características geográficas das províncias do império romano.
Ao falar da Lusitânia, Plínio-o-velho faz referência a Merobrica como uma das cidades costeiras a sul do rio Tejo. Diz ainda que, entre os povos que pagavam tributo a Roma, havia os “mirobriguenses que se denominam de célticos”.
E assim associou-se a Miróbriga Céltica de Plínio-o-Velho à cidade romana perto de Santiago do Cacém.
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Miróbriga |
Plínio,
o Velho, Historia Naturalis (4.118 e 4.116)
BARATA, M. F. 1997: Miróbriga. Urbanismo e arquitectura.Tese de Mestrado apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto,em 1997.
Barata,
Filomena. (1998). Miróbriga: sua valorização e caracterização. Anales de
Arquelogía Cordobesa. 10.21071/aac.v0i.11308.
BARATA, Maria Filomena (2009). Caracterização geral de Miróbriga. In Trinidad Nogales Basarrate (ed.) Ciudad y foro en Lusitania Romana. Cidade e foro na Lusitânia Romana. Studia Lusitana 4. Merida: Museo Nacional de Arte Romano, pp. 201-229
QUARESMA,
J. C. (2012) – Economia antiga a partir de um centro de consumo lusitano. Terra
sigillata e cerâmica africana de cozinha em Chãos Salgados (Mirobriga?)
Quaresma, José & Felício, Catarina & Sousa, Filipe & Gadanho, André & Guimarães, Raquel & Silva, Rodrigo. (2020). Mirobriga (Santiago do Cacém): novos desenvolvimentos científicos, entre análises e novas escavações. Revista Portuguesa de Arqueologia Vol.23. 121-130.
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