Estação Arqueológica do Creiro - Uma fábrica de salga romana


Estação Arqueológica do Creiro
Serra da Arrábida


Debruçada sobre a belíssima enseada do Portinho da Arrábida e escondida pela vegetação rasteira da  serra, a estação arqueológica do Creiro está envolta por uma paisagem magnífica. 

Neste local do sopé da Serra da Arrábida, surgiu um núcleo fabril de época romana, onde se produziam salgas e molhos de peixe e que, juntamente com Tróia, Cetóbriga (Setúbal) e outras fábricas espalhadas na região do baixo Sado, fazia parte de uma área muito importante na produção de preparados piscícolas do império romano ocidental.

Oficina de produção de salgas/molhos de peixe
Ruínas Romanas do Creiro


A riqueza em pescado, a existência de uma nascente de água doce e de um fundeadouro natural, propiciaram a construção desta fábrica romana, cujas ruínas foram escavadas, estudadas e abertas ao público sob a égide do MAEDS (Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal)

A laboração desta fábrica ter-se-á iniciado no 3.º quartel do século I d.C., tendo continuado a funcionar até ao século II, altura em que parou a produção.
Na 2.ª metade do século IV, a produção foi retomada com a reactivação de uma parte da oficina, que se encontraria degradada devido ao abandono.
A produção na fábrica romana do Creiro terá cessado definitivamente  no 1.º quartel do século V.


Estação Arqueológica do Creiro
vista do lado este


A construção da fábrica do Creiro durante a 2ª  metade do século I d.C. incluíu não só a oficina de produção, mas também zonas destinadas possivelmente a habitação, armazéns e balneário.


Oficina de produção Creiro
Oficina de produção de salgas/molhos de peixe do Creiro


A oficina de produção, de planta rectangular e totalmente murada, integrava onze tanques (cetárias) dispostos à volta de um pequeno pátio, aberto a sul, que comunicava por sua vez, com o amplo pátio central da fábrica. 
Nove destes tanques, destinados à produção de salgas e/ou molhos de peixe, tinham as paredes e o fundo revestidos por uma argamassa composta por cal, areia e cascalho anguloso, o que lhes conferia  impermeabilização. A junção das paredes formavam cantos arredondados, muito mais fáceis de limpar, tornando-se assim mais higiénicos.


Oficina de produção de salgas/molhos de peixe
 Estação Arqueológica do Creiro


Dois outros tanques existentes nesta oficina, um deles facilmente identificável pela sua forma estreita e rectangular, são atribuídos a uma primeira fase de remodelação da oficina. Apresentam-se igualmente revestidos, mas com menor profundidade e foram assentes sobre o pavimento do pátio. O seu fundo é menos impermeável do que o das restantes cetárias, pelo que se julga terem sido utilizados como reservatórios de sal ou de peixe.


Oficina de produção de salgas/molhos de peixe
 
Estação Arqueológica do Creiro

Estação Arqueológica do Creiro
no sopé da Serra da Arrábida


Mesmo encostada à oficina de salga, surge uma estrutura que ainda não foi escavada em profundidade. Composta inicialmente por cinco compartimentos, terão sido acrescentados mais dois numa posterior remodelação. Pensa-se que este edifício pudesse servir de habitação, possivelmente ao proprietário da fábrica.


Zona com edifícios possivelmente destinados
a habitação
Ruínas Romanas do Creiro


No lado Este do sítio arqueológico, a uma série de 6 compartimentos rectangulares e de dimensões semelhantes foi chamada de "armazéns" por se pensar que seria essa a sua função. Estes compartimentos comunicam directamente com o pátio central da fábrica.
Aqui poderiam ter sido armazenadas as ânforas usadas para embalar as salgas e os molhos de peixe que seriam transportados por via marítima, mas também o sal, os condimentos, e outros produtos essenciais à laboração.

A sul destes compartimentos, surgem vestígios de outro edifício, possivelmente uma outra oficina que integraria outra fábrica de produção de preparados de peixe.


Zona de "armazéns"
Ruínas Romanas do Creiro


No exterior da fábrica, no seu canto NE, surgem os vestígios de um poço circular e de um sistema de canalização, possivelmente um "aqueduto", que passando por baixo da oficina de produção transportava a água até uma cisterna.
A cisterna, localizada a sul do balneário, ainda não foi objecto de qualquer escavação arqueológica.


Poço
Ruínas Romanas do Creiro


A existência de um balneário na estação arqueológica do Creiro leva-nos a reflectir na obsessão dos romanos pelas termas. Sem dúvida que, mais do que um local para se lavarem, as termas eram um espaço de lazer e de convívio.


Termas - Ruínas Romanas do Creiro
O vestíbulo da entrada comunicava com a grande sala circular (ao fundo)
e com o frigidarium (1º plano) 


Nas ruínas romanas do Creiro, o edifício termal apresenta várias divisões. O acesso faz-se por um vestíbulo que comunica, á direita com uma grande sala circular, com mais de 5 metros de diâmetro. Esta sala, a que mais chama a atenção do visitante,  poderia ter servido como  apodyterium, um local das termas onde os banhistas deixavam as suas roupas e pertences antes de ir a banhos.

Do lado esquerdo, o vestíbulo comunica com o frigidarium, a zona fria dos banhos, onde ainda é possível observar uma piscina rectangular, com restos do seu revestimento em mármore.


Piscina de água fria do frigidarium


A zona aquecida das termas, à qual se acedia através do frigidarium, seria composta por três compartimentos, mais um de apoio à fornalha (praefurnium) ao qual se acedia através de uma escada de alvenaria que comunicava com o exterior.


Praefurnium e fornalha
Ruínas Romanas do Creiro


O pavimento suspenso das salas, que era suportado por arcos e pilares, ruiu, ficando à vista o sistema de aquecimento do ar - o  hipocaustum. Parte de alguns dos pilares de sustentação do pavimento, por entre os quais circulava o ar aquecido pela fornalha, ainda são visíveis sobre o  pavimento de tijoleira, que cobre o chão.


Hipocaustum
Ruínas Romanas do Creiro

Hipocaustum
Ruínas Romanas do Creiro


A estação arqueológica do Creiro apresenta três fases de ocupação:

- Uma 1ª fase datada dos séculos I–II d.C. (Alto Império), com a construção e inicio da laboração da fábrica de preparados piscícolas;

- Uma 2ª fase datada dos séculos IV–V d.C. (Antiguidade Tardia) em que é retomada pequena parte da produção e são feitas algumas reparações nas estruturas. Durante o 1º quartel do século V, acompanhando o declínio do império romano, a produção no Creiro cessou,  mas continuou a haver ocupação do local até ao 3.º quartel do século V.

- Por fim, uma 3ª fase datada do séc. XII (Período muçulmano Almóada), da qual foram encontrados alguns vestígios.


Vista do interior da grande sala circular
Ruínas romanas do Creiro






Bibliografia:

TAVARES DA SILVA, Carlos; SOARES, Antónia Coelho. Escavações arqueológicas no Creiro (Arrábida), Campanha de 1987 in Setúbal Arqueológica, vol. VIII, 1987, pp. 221-237


Creiro (Arrábida): um estabelecimento de produção de preparados de peixe da Época Romana
Carlos Tavares da Silva & Antónia Coelho-Soares | Revista Portuguesa de Arqueologia – volume 19


Estudo zooarqueológico dos restos recuperados no estabelecimento industrial romano do Creiro (Arrábida, Setúbal), Cleia Detry & Carlos Tavares da Silva | Revista Portuguesa de Arqueologia – volume 19

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