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Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa |
Do baixo casario da típica aldeia alentejana de Flor da Rosa, uma grande estrutura fortificada sobressai, estranha e imponente.
Na fachada, três torres escalonadas à esquerda, ao centro uma pequena galilé onde se encontra a entrada, e à direita uma estrutura compacta em forma de cruz, cuja dianteira faz lembrar uma grande torre de menagem.
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Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa |
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Torre sineira e Cruz de Malta |
No topo, uma torre sineira deixa antever a presença de um local de culto.
Quase a passar despercebida, uma pequena cruz de Malta, ajuda a desvendar o mistério de tão intrigante e original monumento.
Relacionado com a Ordem de Malta ou Ordem dos Cavaleiros Hospitalários, a sua história é indissociável à do seu fundador, D. Frei Álvaro Gonçalves Pereira, 1º Prior do Crato e pai de D. Nuno Álvares Pereira – o condestável.
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Janela da Igreja de Flor da Rosa |
A História
A história do Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa está diretamente relacionada com a história do seu fundador - Álvaro Gonçalves Pereira.
Filho ilegítimo de um eclesiástico com uma carreira relevante, e oriundo de uma família de grande prestígio e influência, ingressa na Ordem dos Hospitalários como um simples freire.
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Lago do claustro com a Cruz de Malta |
Em 1336 viaja até Rodes (Grécia), sede dos hospitalários, oferecendo os seus préstimos. A sua dedicação terá impressionado o grão-mestre da Ordem, já que regressa a casa com o título de Prior de Portugal da Ordem dos Hospitalários.
Em 1340, participa na batalha do Salado, no sul de Espanha, que termina com a vitória dos reis cristãos contra os muçulmanos, participação essa que lhe vale o reconhecimento real e lhe confere enorme prestígio.
Ainda nesse ano, a sede da Ordem muda-se de Leça do Balio para a vila do Crato, passando o Priorado de Portugal da Ordem dos Hospitalários a chamar-se Priorado do Crato, sendo Álvaro Gonçalves Pereira o seu 1º Prior.
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Portal de entrada na igreja séc. XVI |
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Pormenor do portal de entrada na igreja com a inscrição VIRGINI GRATIARUM SACRUM |
A partir daí, Álvaro Gonçalves Pereira, inicia um programa intenso de construções que visa não só reforçar a implementação da Ordem em torno do Tejo, mas que envolve também uma estratégia de afirmação senhorial e política.
A sul do rio, a vila do Crato, já era regida pelos freires Hospitalários desde 1232, ano da doação por D. Sancho II, tendo estes por obrigação povoá-la e fortificá-la, não se sabendo ao certo a data da conclusão do seu castelo.
Independentemente disso, e como que a cortar laços com o passado, Álvaro Gonçalves Pereira decide fundar uma capela em honra de Santa Maria nos termos do Crato, e em 1341 recebe autorização régia para comprar herdades, destinadas a manter os religiosos.
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Pormenor da abóboda de tijoleira da entrada século XVI |
O Prior dá-lhes o nome de Flor da Rosa ou “Flor de Rodes” uma possível alusão à sede da Ordem ou talvez em memória da sua viagem a Rodes.
Com a conclusão das obras a sede do Priorado muda-se da vila do Crato para Flor da Rosa, onde permanece até 1439.
Depois do complexo de Flor da Rosa, Álvaro Gonçalves Pereira inicia outras duas obras: o Paço em Cernache do Bonjardim, onde o seu filho o condestável D. Nuno Álvares Pereira viria a nascer, e entre os dois o Castelo da Amieira do Tejo, muito próximo de outro castelo Hospitalário - o castelo de Belver.
A construção deste património em territórios onde os Hospitalários já assinalavam a sua presença, poderá ter tido o intuito de afirmação senhorial dando ainda mais notoriedade à família Pereira, numa época de grandes conflitualidades entre famílias.
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Pormenor da abóboda do claustro |
O Edificado
Flor da Rosa terá tido três fases de construção principais, duas no séc. XIV e outra no séc. XVI.
Pelos vestígios existentes, de inicio (1341?) seria apenas uma estrutura defensiva quadrangular, disposta em volta de um pátio, com uma torre a norte e possivelmente outra a sul.
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Paço-acastelado de Flor da Rosa |
Mais tarde, esta estrutura terá sido renovada com a construção de novas torres defensivas a sul, que servissem também de paço-forte.
Em 1356, o paço foi ampliado com a construção da torre mais alta e deu-se início à construção da igreja de grandes dimensões, encostada ao quadrado defensivo.
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Igreja-fortaleza de Flor da Rosa |
Em forma de cruz latina, com pequenas aberturas no topo e janelas altas e esguias decoradas com duas molduras (arquivoltas), tem como decoração um friso de matacães dentado, a rematar o topo.
O interior, nu e austero, impressiona pela sua altura e pela simplicidade.
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Abóboda da Igreja de Flor da Rosa reconstruída no séc. XX |
Foi construída para “remissão dos pecados” do seu fundador e com fins funerários, talvez como panteão familiar ou destinada a receber dignitários da Ordem como última morada, como atestam os 6 nichos destinados a receber túmulos (arcossólios) existentes na igreja.
Actualmente, apenas um túmulo feito de mármore de Estremoz ali se encontra - o do seu fundador D. Frei Álvaro Gonçalves Pereira, 1º Prior do Crato.
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Túmulo de Álvaro Gonçalves Pereira, 1º Prior do Crato |
No século XVI, o complexo de Flor da Rosa sofre ampliações e remodelações com vista a receber um colégio de teologia para trinta religiosos. Foi nessa altura que foi (re)construído o claustro, a sala do Capítulo, o refeitório e os dormitórios, mas o colégio nunca chegou a funcionar.
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Claustro quinhentista |
Votado ao abandono, desabitado e em estado ruinoso já no início do séc. XVII, sofre ainda mais danos com o terramoto de 1755 e com um forte temporal em 1897 que provocou o desabamento da cabeceira da igreja.
Em 1910 é classificado como Monumento Nacional, mas é só a partir de 1940 que se dá a sua sistemática recuperação.
Em 1990 iniciam-se as obras para a construção da pousada adossada ao mosteiro, utilizando algumas das suas dependências.
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Fonte monumental denominada "Fonte branca" encimada com o brasão dos Almeida e inscrição onde figura a cruz de Malta, e que estava incluída no perímetro do Mosteiro
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No Núcleo Museológico do Mosteiro, decorre atualmente uma exposição de esculturas em pedra, de temática Mariana, executadas entre os séculos XV e XVII, provenientes do Museu Nacional de Arte Antiga.
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Exposição de escultura Núcleo Museológico do Mosteiro de Flor da Rosa |
Bibliografia:
Arquivo Nacional da
Torre do Tombo - GRÃO PRIORADO DO CRATO
Hemeroceta
Digital de Lisboa -ArchivoHistoricodePortugal_SerieII.pdf
P.
Pinto Costa, «Álvaro Gonçalves Pereira: um homem entre a oração e a construção
patrimonial como
estratégia de consolidação familiar», População e Sociedade. Homens de oração e
homens de ação:
da matriz fundadora aos compromissos dos mestres no séc. xiv, n.º 23 (junho
2015), Porto,cepese,
pp. 45-71.
P.Pinto Costa, “As estruturas fortificadas de Belver,
do Crato, da Amieira e da Sertã: entre o domínio territorial e a afirmação
senhorial.” In Isabel Cristina F. Fernandes (Coord.), Castelos das Ordens
Militares. Actas de Encontro Internacional. Lisboa: Direção-Geral do Património
Cultural, 2013, vol. II, p. 313-330. ISBN: 978-989-8052-61-2
P. Pinto Costa, “Redes de atuação, memórias socio
religiosas e linguagens funerárias dos Templários e dos Hospitalários em
Portugal” ,Milites Dei. Las órdenes militares: Encaje social y manifestaciones
religiosas: (XLVIII Semana Internacional de Estudios Medievales.
Estella-Lizarra. 19/22 de julio de 2022), 2023, ISBN 978-84-235-3668-9, págs.
255-287
SIPA, Igreja de Flor da Rosa / Convento de Flor da Rosa
/ Paço de Flor da Rosa / Pousada da Flor da Rosa - IPA.00004573
Villamariz, C. M. (2016). A Arquitetura Religiosa
Fortificada no Século XIV: heranças e experimentalismos. O Fascínio Do Gótico.
Um Tributo a José Custódio Vieira Da Silva.
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